sexta-feira, 26 de outubro de 2007

A vida secreta nos sonhos

Cerca de 1/3 de nossa vida é passada em estado de inconsciência, melhor dito, de sono. Apesar disso, esse importante período é praticamente ignorado pela ciência moderna como representativo da atividade humana. Considera-se que, enquanto dorme, a pessoa não faz nada de útil. O sono é apenas o momento em que o corpo repousa para recuperar energias. Contudo, este ‘não-lugar’ onde o homem permanece oito horas por dia é palco de uma atividade intensa: o sonho.

Na cultura ocidental moderna, foi o pai da psicanálise, Sigmund Freud, quem iniciou o estudo dos sonhos, vinculando-os a complexos, medos e principalmente à sexualidade. Já seu discípulo e quase antagonista, Carl Gustav Jung, percebia os sonhos como um mundo mítico, mitológico e arquetípico, que poderia vir à tona trazendo conhecimentos ancestrais, anteriores à própria existência do sonhador. A esse fenômeno o psicanalista suíço dava o nome de ‘inconsciente coletivo’.

Na literatura e nas artes, o sonho ganhou destaque com o surrealismo, movimento deflagrado pelo poeta francês André Breton, em 1924. Até então, representações de sonhos e pesadelos podiam ser encontrados nas pinturas de Peter Brueghel, Hyeronimus Bosch e Goya ou em passagens eventuais da literatura. Com o surrealismo, porém, o sonho passa da condição de elemento casual na arte para tornar-se um método para a construção da própria obra.

Com base nas descobertas psicanalíticas, o surrealismo introduz o conceito de "automatismo psíquico" (fluxo ininterrupto da linguagem) para libertar o conteúdo onírico da alma, fundindo real e imaginário, para que o artista se expresse sem travas ou restrições, com seus claros e escuros. Os sonhos se tornam matéria-prima para a criação artística.

A partir de 1926, o surrealismo invade a arte. O cinema (com “Um cão andaluz”, de Luis Buñuel e Salvador Dali), a literatura, o teatro (“Assim que Passem Cinco Anos”, de Garcia Lorca), a poesia (Lorca, Aleixandre, Alberti, Octavio Paz, René Char, Breton, Neruda, Dylan Thomas, Murilo Mendes), a pintura (com Dali, Max Ernst, Magritte, Miró, Picasso, Wilfredo Lam, Ismael Nery), a escultura, mesmo a comédia de televisão passam a receber influência –ainda que indireta e diluída- da linguagem onírica. Hoje, qualquer clipe de música traz imagens de cunho surrealista. A própria palavra tornou-se sinônimo de uma situação impossível, que ocorre abruptamente no cotidiano.

Um dos exemplos pitorescos dessa visão está numa anedota sobre o poeta surrealista francês Saint Paul Roux, que, ao deitar-se para dormir, pendurava do lado de fora da porta um cartaz onde estava escrito: “Poeta trabalhando”.

Os sonhos e as religiões

Se a arte só oficializou o sonho como protagonista da linguagem a partir do surrealismo, o mesmo não se pode dizer das religiões, onde sempre teve destaque. Para as religiões, o sonho representa a continuidade da vida do eu num universo sem matéria (o sono), para o qual se vai e vem diariamente.

Na interpretação psicanalítica os sonhos são o resultado de desejos e pulsões inconscientes. Mas, na visão espiritualista, o sonho representa a comunicação do mundo sutil com o homem. É através dele que se recebem presságios (como entre os gregos politeístas), profecias (como com o monoteísta José, no Egito, com a interpretação dos sonhos do faraó), revelações e intuições (como entre os índios hopi, animistas).

O sonho é a consciência desperta do eu dentro do mundo do sono (que os antigos poetas chamavam de “pequena morte”). Assim como no estado de vigília pode-se levar uma vida fragmentada ou mais consciente, também durante os sonhos pode-se ter mais ou menos clareza. Há diversos tipos de sonhos, desde aqueles que parecem não ter sentido algum para a pessoa, até aqueles que são nítidos e que trazem, após o despertar, uma mensagem específica ou a sensação de experiência vivida.

Os sonhos e seu conteúdo variam com a qualidade da vida interior que o indivíduo (o “sonhador”) leva em seu dia a dia. Pessoas que vivem apenas para seus afazeres e interesses materiais, sem um olhar transcendente, em geral têm sonhos dispersos, desconexos, sem relação aparente com nada. Estes quase sempre são esquecidos, tão logo se desperte. Às vezes, sequer há a lembrança de se haver sonhado.

Há sonhos pesados, terríveis –chamados pesadelos- que podem tanto ser o efeito do desgaste corporal e psíquico sobre o eu, como podem simbolizar medos internos e ocultos. Mas podem, também, ser o meio pelo qual o eu profundo procura comunicar algo de relevante à pessoa, na forma de imagens e sensações que causam transtorno.

Porém, para quem reconhece interiormente a existência de uma realidade espiritual, e que pauta sua vida não apenas em satisfazer suas necessidades materiais, mas em servir ao semelhante, com plena consciência de que a morte pode chegar a qualquer momento, o mundo dos sonhos não é mais um mundo sem sentido ou com sentido oculto. Ele se torna uma porta para um plano maior, onde o eu é ensinado e preparado, recebendo orientações de cunho moral, material, psicológico e espiritual.

O grande mestre e sheikh sufi (muçulmano) Muzaffer Ozaki, da ordem Halveti Jerrahi, dizia que (...) “ao dormir, a alma abandona o corpo, mas sem perder sua conexão com ele, como a luz que sai de uma lanterna. Essa luz se estende até a tela divina, onde ficam registradas as anotações que lhe dizem respeito. Ao despertar, a luz da alma volta ao corpo, como quando se desliga uma lanterna. Por meio da extensão da alma, o sonhador pode perceber um nível de conhecimento que se encontra além de seu domínio, no âmbito do divino.”

“(...) Os símbolos e imagens dos sonhos são como hieróglifos que podem ser lidos por pessoas experientes. Mas estes símbolos mudam de situação para situação, de pessoa para pessoa, de alma para alma. (...)

Nunca se deveria contar os sonhos a alguém que tem o hábito de falar mal dos outros. Eles só devem ser contados para aquelas pessoas cujas bocas estão limpas.”

Uma narrativa do sheikh Muzzafer Ozak

“Um dervixe que vivia no campo, longe da cidade onde seu mestre morava, teve um sonho. Sentia que era um sonho importante e que devia contá-lo a seu mestre imediatamente. Ele sonhara que seu corpo inchava como se fosse uma mulher grávida. Então, saía uma serpente de sua barriga e seu corpo voltava ao tamanho normal.

Como estava muito ocupado para visitar seu mestre, o dervixe chamou um de seus empregados de confiança. Contou-lhe o sonho e mandou-o para a cidade, para que procurasse e contasse ao seu mestre. O criado foi orientado para que não contasse o sonho a mais ninguém, e que até mesmo evitasse pensar nele. O dervixe sabia que era muito importante revelar seus sonhos apenas àquela pessoa que pudesse interpretá-lo.

O empregado partiu imediatamente à cidade. Pelo caminho, encontrou um conhecido que tinha fama de linguarudo. Este homem lhe perguntou o que estava fazendo ali e o criado respondeu que ia até a cidade. “O que você vai fazer por lá?”, perguntou o linguarudo.

O empregado respondeu: “Tenho que levar uma mensagem da parte de meu senhor.”

“Que mensagem?”

“É confidencial.”

O homem continuou pressionando o empregado para que desse mais detalhes até que, finalmente, este contou que estava indo ver o mestre de seu amo, para contar-lhe o sonho que havia tido na noite anterior

O linguarudo começou, então, a perguntar-lhe de que se tratava o sonho. No começo, o empregado se negou a contar, mas finalmente acabou por ceder. “Meu amo sonhou que inchava”.

Sem esperar o fim da narrativa, o linguarudo começou a rir e disse: “Então ele estourou, como um balão furado por uma agulha”. Tão logo satisfez sua curiosidade, foi embora.

O criado apressou-se a chegar á cidade, indo diretamente à casa do mestre. Quando foi recebido, disse: “Meu senhor teve um sonho na noite passada e roga que o senhor o interprete. Ele sonhou que seu corpo inchava...”

“Páre!”, disse de repente o mestre. “O sonho já foi interpretado. Não há mais nada que eu possa fazer. Volte para sua casa e pergunte por seu patrão.”

Quando o empregado voltou para casa, descobriu que seu senhor havia morrido durante sua ausência. Algumas horas depois que o criado havia saído, o corpo do patrão começou a inchar, até que finalmente faleceu.”

Leituras recomendadas

O Amor é o Vinho (em espanhol) Sheikh Muzzafer Ozak Al-Jerrahi

sábado, 20 de outubro de 2007

Poesia do Ser - Uma breve antologia

É comum associar o ato de escrever poemas à capacidade de expressar sentimentos ou ao idealismo -"fulano de tal é um poeta", diz-se daquele que acredita em seus ideais, sem temer o ridículo. Outra abordagem, de cunho acadêmico, vincula a poesia a uma atividade cerebral, racional, que pode ser planejada e executada, assim como um projeto de arquitetura pode vir a tornar-se uma construção.

Entre estas duas visões, ou para além de ambas, há uma outra, que considera a poesia como um momento de revelação. Por este enfoque, a poesia é vista como um dos mais elevados meios de exploração do mundo interno e de autoconhecimento do ser humano. No entanto, difere do processo religioso, em que a iluminação e a ascese surgem por meio da contemplação, da oração ou da meditação, pois na poesia o despertar ocorre através do belo.

Basta ler um trecho da "Ode a uma urna grega", do poeta inglês John Keats (1795-1821), para compreender a irrupção do belo:

"As melodias ouvidas são doces, mas ainda mais
doces são as não ouvidas;
suaves flautas, soai não para os sentidos,
mas para o espírito.
Tocai canções silenciosas
e ainda mais desconhecidas."

No poema de Keats, o belo representa a manifestação do mundo invísivel dentro do mundo sensível. Há uma música mais essencial que habita a própria música e a alma é convidada a ouvi-la. A partir deste ponto ("soai não para os sentidos, mas para o espírito"), o poema passa também a ser elaborado no interior daquele que o lê, abrindo-se duas possibilidades: deter-se no prazer intelectual da leitura, que se encerra com a sugestão destas “canções silenciosas e ainda mais desconhecidas”, ou avançar rumo ao próprio ser, de forma a escutar dentro de si mesmo estas “melodias (...) ainda (...) não ouvidas”.

Como John Keats, há poetas de todas as épocas, línguas e tradições, que suscitam estados de alma e de consciência elevados no leitor, tornando-o cúmplice do processo criativo. Quantos já não tiveram o rumo de suas vidas alterado após a leitura de um verso, um poema, pelo encontro com uma obra inesquecível? Quantos não despertaram ou não sentiram o frenesi que a leitura de um verso pode causar?

Há poetas que são verdadeiros ourives da palavra e do idioma que manejam, capazes de infundir em seus poemas o resultado de suas experiências internas e externas, tornando-as universais e atemporais. A esse tipo de poesia, fundada no íntimo, dá-se o nome de poesia ou poética do ser.

A poesia do ser é a suspension of desbelief (suspensão da descrença e dos preconceitos) de que falava outro grande poeta inglês, Samuel Taylor Coleridge. É a abertura plena do interior ao Todo, permitindo a compreensão em profundidade do amor, morte, solidão, angústia, mar, natureza, alegria, paisagens, silêncio, do encontro consigo mesmo. A poesia do ser não apenas torna visível o invisível, como, dir-se-ia, também prepara os olhos para enxergar o que surge diante de si. Ela elabora mundos dentro ou além do mundo e os povoa.

Raramente a poesia do ser é dramática. Antes, movimenta-se em silêncio, que é também o habitat do espírito reflexivo e de toda revelação. Ela é transcendente e, se o cotidiano lhe serve como matéria-prima, é apenas para ser superado.

Onde a filosofia e a religião falharam em tornar o ser humano mais consciente de seu papel no universo, pode-se dizer que a poesia que nasce do íntimo sempre foi e será bem sucedida.

Da Antologia

A breve antologia poética ora apresentada, com algumas exceções (casos de Miguel Hernandez e Pablo Neruda), contempla autores ainda pouco conhecidos do leitor brasileiro em geral. A ausência de poetas como Rainer Maria Rilke, Jalaludin Rumi e Cecília Meirelles é deliberada nesta primeira seleção de poemas.

Antologia poética

Miguel Hernandez
(Espanha, 1910-1942)

Vivo na sombra, cheio de luz. Existe o dia?
Aqui é minha tumba ou minha abóbada materna?
Sinto este pulsar contra minha pele como uma fria
laje que germinasse quente, rubra e terna.

É possível que eu não tenha nascido ainda,
ou que sempre tenha estado morto. A sombra me governa.
Se isso é viver, então não sei como morrer seria,
nem sei o que persigo nesta busca tão eterna.

Prisioneiro em um traje, sinto que desejo
despir-me, livrar-me daquilo que não sou
eu e que torna turvo e distante o infinito.

Mas a teia negra, distante, vai comigo
sombra a sombra, contra a sombra até que se desfaça
diante da vida nua, crua e crescente deste nada.

Manuel Altolaguirre
(Espanha, 1905-1959)

Para chegar à luz

Dizem que sou um anjo
e, degrau a degrau,
para chegar à luz
tenho que usar as pernas.
Cansado de subir, às vezes rodo
(talvez sejam as pregas de minha túnica),
mas um anjo rodando não é um anjo
se não tem a honra de chegar ao abismo.
E o que encontrei em minha maior queda
era brando, brilhante;
lembro-me de seu perfume,
seu deleite malsão.
Despertei e agora quero
encontrar a escada,
para subir sem asas
pouco a pouco
rumo à minha morte.

Odyseas Elitys (Grécia, 1991-1996)

Ainda é cedo neste mundo, me ouves?, os monstros ainda não foram domados, me ouves?,
meu sangue perdido e desejado, me ouves?, punhal que corre como carneiro pelos céus
e quebra os galhos das estrelas, me ouves?

Sou eu, me ouves?
Te amo, me ouves?
Te tenho, te levo, te visto
com o branco traje nupcial de Ofélia, me ouves?

Onde me deixas, onde vais e quem, me ouves?, te leva pela mão por cima dos dilúvios
enormes lianas e lava de vulcões?

Chegará o dia, me ouves?, em que nos enterrem e milhares de anos depois, me ouves?, nos converterão em rochas brilhantes, me ouves?
Para que sobre elas paire a crueldade, me ouves?, humana, e em cinco mil aninhos nos atirarão, me ouves?, às águas, um a um, me ouves?

Conto meus seixos amargos, me ouves?
O tempo é uma grande igreja, me ouves?, onde às vezes nas imagens, me ouves?, dos santos
surgem lágrimas verdadeiras, me ouves?

E os sinos abrem nos céus, me ouves?, uma passagem profunda que me permite atravessar.
Aguardam os anjos com círios e salmos fúnebres.
Não vou a parte alguma, me ouves?, ou nenhum ou os dois juntos, me ouves?

Esta flor da tormenta e, me ouves, do amor,
de uma vez para sempre a decepamos, me ouves?, e não voltará a florescer, me ouves, em outra terra, em outra estrela, me ouves?

Não existe o solo, não existe sequer o ar, me ouves?, que tocávamos, me ouves?
E nenhum jardineiro foi tão afortunado em outros tempos, depois de tanto inverno e tantos ventos frios, me ouves?, que nasça uma flor, só nós, me ouves?, levantamos toda uma ilha, me ouves?, com grutas e cabos e inacessíveis recantos florescidos
Ouves, ouves?
Quem fala ás águas e quem chora, ouves?
Quem procura o outro, quem grita, ouves?
Sou eu que grito, sou eu que choro, me ouves?Te amo, te amo, me ouves?

Cintio Vitier (Cuba, 1921- )

Não são minhas as palavras nem as coisas.
Elas têm suas festas, seus assuntos
que não me competem,
espero seus sinais como o fogo
que está em meus olhos com obscura indiferença.

Não são meus o tempo nem o espaço
(e muito menos a matéria).
Eles entram e saem como pássaros
pelas janelas sem portas de minha casa.
Se a atravessasse, sairia em outra sala:
quem fala sou eu, mas nada entendo.

Talvez minha vida seja uma hipótese
que alguém se cansou de imaginar
um conto interrompido para sempre.

Estou apenas escutando estes fantasmas
que no crepúsculo vêm ver-me,
ansiosos de que eu os incorpore:
tu te negarias, sofrerias, te desvanecerias?
Não é meu, lhes respondo, o olhar,
negar seria esplêndido, sofrer, interminável,
estas façanhas não me pertencem.

Mas de repente não posso dissuadí-los,
porque já não ouço minha solidão
e estou cheio, saciado, como o ar,
de meu próprio vazio ressonante.

E continuo dizendo a mim mesmo que não tenho
nenhuma idéia de quem sou,
onde vivo, nem quando, nem por quê.

Alguém fala sem fim em outra sala.
Nada me serve, então. Não estou só.

Estas palavras ficam de fora, incompreensíveis,
como os seixos da praia.

Lucian Blaga (Romênia, 1895-1961)

Há tanto silêncio ao meu redor
que quase consigo ouvir
o luar batendo na janela

Em meu peito
nasce uma voz estranha
uma cadência triste que não me pertence
dizem que os antepassados mortos antes do tempo
ainda com sangue jovem em suas veias
com sangue cheio de paixões
com o sol vivo de amores
vêm
vêm para terminar de viver em nós
sua vida ainda não vivida.

Há tanto silêncio ao meu redor
que quase consigo ouvir
o luar batendo na janela

Quem sabe, alma minha, em que peito cantarás tu também
além destes séculos
que cordas de silêncio vibrarás
em que harpa de trevas afogarás tuas lembranças
quebrarás tua alegria de viver

Quem sabe?
Quem sabe?

Adônis (Síria, 1930- )

Desejo me ajoelhar.
Quero rezar à coruja de asas quebradas.
À brasa, aos ventos.
À morte.
À peste.
Queimar no incenso meus dias brancos,
meus cantos,
meu caderno.
A tinta e o tinteiro.
Rezar a qualquer coisa
que ignore o que seja rezar.

Pablo Neruda (Chile, 1904-1973)

Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.

Perto de mim com teus costumes
com tua cor e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e dois vilarejos se confundem
e há um rio perto de um rio
e dois vulcões crescem juntos.

Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e tem cor de barro a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pavorosas pedras
Pode caminhar com quatro pés
e quatro lábios a ternura.

Porque sem sair do presente
que é um delicado anel
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um repetido arrebatamento.

Roberto Juarroz (Argentina, 1925-1995)

Mais cedo ou mais tarde
deve-se pôr a mão no fogo.

Talvez a mão possa
aprender antes a ser chama
ou talvez a persuadir a chama
para que tome a forma de uma mão.

E se ambas as coisas falharem,
talvez possam a mão e a chama
resolver-se nos átomos já livres
de uma diferente claridade.

Ou talvez, simplesmente,
aquecer um pouco mais o universo.

Aram Rochert (Madagascar, 1950- )

as mãos talvez nunca mais se encontrem

tão próximas
tão no mesmo corpo
tão na mesma alma
mas incapazes de bater palmas

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Pobre planeta


> O aquecimento global é ainda pior do que se imaginava, afirma o cientista Tim Flannery, especialista em questões climáticas vencedor do Prêmio Australiano do Ano, em 2007. A atual derrocada planetária foi acentuada com a exportação do modelo econômico mais predatório que a civilização humana já conheceu: a globalização. Ao mesmo tempo, nunca se falou tanto em sustentabilidade em todos os segmentos. Resta saber se a adoção de estratégias de desenvolvimento sustentável virá a tempo de impedir que a devastação se aprofunde. É difícil acreditar que poderá ocorrer um freio na trajetória rumo ao abismo, uma vez que ao atual sistema econômico só existem as lógicas do lucro, da produção incessante, do consumo e do marketing falacioso.

> O cultivo de cana-de-açucar para produção de etanol -vendido como panacéia energética pela mídia desavisada e governos- começa a invadir a Floresta Amazônica. Como tanto as leis como seu cumprimento têm pouca validade no Brasil, só existe uma forma de conter este avanço ou de minimizá-lo: certificar toda a cadeia de produção do etanol e exigir selos verdes semelhantes aos que hoje existem para madeira (o Smart Wood, do FSC). Quem não cumprir regras de preservação do meio ambiente; de manejo florestal sustentável; de inserção das comunidades locais no processo produtivo; de atendimento á legislação trabalhista e ambiental do país, não poderá exportar. Ou seja: fica sem vender, sem dinheiro. A exigência do selo terá que vir dos compradores europeus e americanos, porque esperar pela aplicação das Leis brasileiras para impedir o fim da Amazônia, equivale a entregar a região para a formação de desertos. De areia ou de monoculturas.

> O maior empecilho para o entendimento entre os seres humanos não está na comunicação entre as pessoas, mas na relação da pessoa consigo mesma, na sua incapacidade de reconhecer o mundo como ele é. Somos prisioneiros de nossa subjetividade e do nosso mundo interior, colocando sempre nossos desejos e fantasias em primeiro plano. É do choque entre estas bilhões de subjetividades -cada uma querendo uma coisa, sem qualquer solidariedade ou preocupação com o outro- que resulta o caos do mundo atual.

A humanidade

A conferência que o Mestre ia pronunciar se chamava "A Destruição do Mundo". Ela havia sido largamente divulgada e muita gente compareceu aos jardins do mosteiro para escutá-la.
Em menos de um minuto, a conferência terminou. O Mestre apenas disse:

“Estas são as coisas que exterminarão a raça humana:

A política sem princípios.
O progresso sem compaixão.
A riqueza sem esforço.
A erudição sem silêncio.
A religião sem risco.
O culto sem consciência.”

(Por Anthony Mello)

Video relacionado

Solo le pido a Dios

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Uma parábola chinesa – adaptada a partir da narrativa de Hermann Hesse


Um ancião chamado Chunglang tinha uma pequena propriedade na montanha. Aconteceu um dia que um de seus cavalos fugiu e seus vizinhos vieram oferecer-lhe sua solidariedade. O ancião, imperturbável, disse então:

-Talvez isso não tenha sido uma desgraça!

E eis que vários dias depois, o cavalo regressou e trouxe consigo toda uma manada de cavalos selvagens. De novo vieram os vizinhos, desta vez para felicitá-lo pela boa sorte. Mas o velho da montanha lhes disse:

—Talvez isso não tenha sido um acontecimento afortunado!

Com tantos cavalos, o filho do velho chinês tornou-se aficionado por montá-los, até que um dia caiu de um deles e quebrou a perna. Outra vez, os vizinhos foram visitá-lo para oferecer-lhe sua solidariedade e novamente o sábio lhes respondeu:

-Talvez isso não tenha sido uma desgraça!

No ano seguinte, vieram até as montanhas os mensageiros dos “Cajados Compridos”. Vieram para recrutar jovens fortes, para exercer a função de mensageiros do imperador e para carregar sua liteira. O filho do ancião, que ainda se encontrava com a perna quebrada, não foi levado.

Chunglang sorria.

********


Hermann Hesse

Um dos maiores escritores de todos os tempos, o alemão Hermann Hesse (1877-1962) é um caso à parte na literatura ocidental. Filho de pastores cristãos que pregaram o Evangelho na Índia, Hesse foi não apenas um escritor que dominou com maestria seu ofício, mas um indivíduo carismático cuja sabedoria levou milhares de jovens, nos anos 60, a aclamar sua obra como um libelo contra a sociedade consumista e mecanicista. Seu nome, durante as famosas rebeliões estudantis de 68, tornou-se sinônimo de luta contra o conformismo e o materialismo e da busca pela paz interior e exterior.

Desde o início, com "Peter Camenzind", a obra de Hesse espelha o reconhecimento da permanente dualidade que habita o ser humano e a necessidade de superá-la pelo reencontro consigo mesmo, rumo à harmonia e à unidade. "Demian", um clássico psicológico do chamado 'romance de formação', mostra -ao contrário de mediocridades comerciais como Harry Potter- o envolvimento da personagem principal com o misterioso Max Demian, vinculado à esotérica ordem de Abraxas. O comovente "Sidarta", uma releitura livre da vida do criador do budismo e de doutrinas da Antiga Índia, é talvez o livro mais espiritualizado de Hermann Hesse, narrando a trajetória de um jovem brâmane que busca libertar-se do próprio eu e do mundo das aparências.

Outra obra fundamental do escritor alemão foi "O Lobo da Estepe", responsável por levar a brasileira de origem ucraniana Clarice Lispector, com apenas 17 anos, a tomar a decisão de tornar-se escritora. O livro também deu origem a uma das principais bandas de rock dos anos 60-70, The Steppenwolf, cuja música "Born to be wild" fez parte da trilha sonora do maior clássico do cinema da contracultura, "Easy Rider". "O Lobo da Estepe" conta a história do alter ego de Hermann Hesse, Harry Haller, que vive entre a loucura e a genialidade. Um dos capítulos do livro intitula-se, justamente, "Só para loucos".

À medida em que envelhecia, Hesse aproximava sua escrita da mais abstrata e harmoniosa das artes: a Música. Amante de Mozart, duas de suas obras de maturidade mostram a profunda conexão entre música e espiritualidade: "Viagem ao Oriente" e "O Jogo das Contas de Vidro". Este último é considerado, junto com "O Processo", de Franz Kafka, e "A Montanha Mágica", de Thomas Mann, o melhor romance alemão do século 20. "O Jogo das Contas de Vidro" (ou "O Jogo de Avelórios"), de 1943, é também a síntese hesseana na direção de uma utopia que reúna tanto as necessidades mundanas do homem (de jogar e divertir-se), como as espirituais (de encontrar a harmonia e viver em busca da alma e da perfeição interior). Novamente, a obra é recheada de referências às filosofias indianas. Em 1946, Hesse ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

Além de grande escritor, Hermann Hesse foi um poeta das imensidões interiores do ser humano, à semelhança de seus amados conterrâneos Johan W. von Goethe, Frederich Hoelderlin e Rainer Maria Rilke. Morreu dormindo, no dia 9 de agosto de 1962.

Sem consolo

Ao mundo primitivo
não conduzem os caminhos;
nossa alma não se consola
com miríades de estrelas,
nem com rios, bosques e mares.
Nem se encontra uma árvore, rio ou animal,
que penetrem o coração.
Não encontrarás consolo,
Senão entre teus semelhantes.


Livros online

O lobo da estepe e Sidarta (em espanhol)

Videos relacionados

Hermann Hesse

Easy Rider - Born to be wild

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Os mistérios da água


A água tem memória e registra o que ocorre à sua volta, à semelhança dos seres humanos. Esta é a conclusão a que cientistas japoneses e russos chegaram após estudos com a água em diversas condições: sob a forma de gelo, pura, contaminada por esgotos ou mesmo quando presente a manifestações das emoções e sentimentos humanos.

O livro “A mensagem da água”, do pesquisador japonês Masaro Emoto, traz fotografias com o registro de como a água ‘reage’ tanto diante de fenômenos físicos como a poluição ambiental, como de emoções, casos do amor e do ódio. Os resultados da pesquisa foram confirmados por acadêmicos russos, como o cientista Iúri Rakhmanín, vice-presidente da Academia das Ciências Naturais: “A água é uma fonte de energia e armazena informação. Ela pulsa oxigênio e hidrogênio”, diz. O vídeo (com áudio em espanhol) Os segredos da água (clique no título para assistir), com cerca de uma hora de duração, apresenta depoimentos e experimentos sobre o tema.

Histórica e curiosamente, a ex-URSS (e atual Rússia) sempre esteve na vanguarda das investigações supra ou paranormais, muitas vezes desdenhadas -ou apenas temidas- pela Ciência convencional. Não por acaso, foram os russos que criaram a chamada fotografia Kirlian, pela qual é possível registrar os movimentos do campo bioeletromagnético dos seres vivos conhecido como aura.

Embora o mecanismo que demonstre como a água armazena informações ainda não esteja inteiramente explicado, a descoberta deverá contribuir para um avanço na compreensão do funcionamento de medicinas como a homeopatia e Florais de Bach. Na homeopatia, a matéria-prima original utilizada para a formulação do remédio é diluída (dinamizada) até não deixar traços; e nos Florais de Bach não há nenhum agente diluído, exceto a água exposta ao sereno da madrugada. Ambas medicinas são reconhecidas e recomendadas pela própria OMS – Organização Mundial da Saúde.

As imagens a seguir mostram cristais de gelo vistos sob as lentes de um microscópio. As legendas são auto-explicativas. As fotos revelam ainda outra curiosidade: quanto mais harmoniosas as formas assumidas pela água, maior sua semelhança com as células de uma colméia, o núcleo de formato hexagonal onde as abelhas depositam seu alimento (o mel) ou que serve de berço para as operárias do reino das flores. Há 300 milhões de anos, esta forma se mantém imutável.




Vídeos relacionados

Os segredos da água

Mensagem da água

Leituras recomendadas

"A mensagem da água" – Masaro Emoto

"A vida secreta das plantas" – Peter Tompkins e Christopher Bird

A vida das abelhas (clique no título para ler o texto integral, em espanhol) - Maurice Maeterlinck